Three expressionist poems/Tres poemas expressionistas.
Redondo, Tercio
Introducao
Em 1920, Kurt Pinthus lancava aquela que viria a ser a mais
conhecida e citada antologia de poesia expressionista, a
Menschheitsdammerung, cujo titulo, como assinalou no prefacio, trazia a
imagem contraditoria de um ocaso e uma aurora simultaneos. Observe-se
que a palavra alema Dammerung denomina aquele periodo de lusco-fusco que
caracteriza as horas tanto do alvorecer quanto do crepusculo. Dai a
ambiguidade do termo, composto, que denota ao mesmo tempo fim e
renascimento, no caso, da humanidade [Menschheit]. No texto de
apresentacao do livro, Pinthus caracteriza os poetas ai contemplados
como gente que "[...] cedo sentiu como o homem afundava na
Dammerung [...], afundava na noite da ruina [...] para novamente emergir
na Dammerung iluminadora do novo dia [...]", e prossegue dizendo
que, no livro, "[...] o homem se volta conscientemente da Dammerung
do passado e do presente que o constrangem, oprimem e devoram
[...]" e se dirige para "[...] a Dammerung liberadora de um
futuro que ele mesmo (o homem) cria" (Pinthus, 1964, p. 25).
Se Pinthus ressalta, no conjunto da obra do Expressionismo, a
promessa de um novo despertar, essa esperanca nao e compartilhada por
todos os poetas de uma geracao que cedo foi surpreendida pela Primeira
Guerra Mundial. Entre os milhoes de mortos na aventura guilhermina
contaram inumeros expressionistas, entre eles, Georg Trackl, August
Stramm, Ernst Stadler, Alfred Lichtenstein, Ernst W. Lotz e Reinhard J.
Sorge. De fato, na selecao de poemas da antologia, percebe-se maior
enfase na expressao de um sentimento apocaliptico do que no vislumbre de
uma nova epoca. Seja como for, os poemas aqui escolhidos para analise
expoem alguns aspectos do crescente mal-estar politico, social e
cultural que perpassa a sociedade alema nos ultimos anos do regime
imperial. Nao se trata evidentemente de apontar um elemento de
representatividade desses poemas em relacao a plataforma expressionista
como um todo, ate porque os temas e as preocupacoes que a constituiram
foram muito variados e frequentemente dispares.
Os poemas (1)
Fim do mundo (2)
O chapeu sai voando da pontuda cabeca do cidadao,
Estrondos ressoam pelos ares feito gritaria,
Telhadores caem, despedacando-se.
E no litoral--le-se--a mare esta subindo.
Irrompe a tempestade, o mar bravio assalta
A terra para arrebentar-lhe os espessos diques.
Quase todo mundo esta resfriado.
Os trens despencam das pontes.
O poema acima e da lavra de Jakob van Hoddis (1887-1942) e data de
1911, epoca em que o rotulo 'expressionista' acabara de ser
cunhado (3) e ainda nao adquirira o apelo midiatico de que viria a gozar
durante a guerra, para, em seguida, se consagrar e se fixar na
historiografia. Nao obstante, e modelado por uma tecnica que seria muito
explorada logo depois, tanto na lirica quanto na prosa. Suas duas
estrofes constituem um quadro fundamentalmente descritivo, com imagens
que se dispoem uma a uma a cada verso, justapondo-se em camadas que se
adensam progressivamente. O primeiro verso descreve a cena de um chapeu
que voa--evento que poderia sinalizar tao somente a lufada mais forte e
inesperada de um vento qualquer. O segundo acrescenta um elemento de
intensificacao desse sinal e provoca uma impressao de incomodo
estranhamento: ouve-se um fragor generalizado que faz lembrar uma
gritaria. No terceiro, surge a constatacao dos efeitos de uma ventania
que faz mais do que arrancar o chapeu do transeunte incauto. E gente que
cai do telhado, 'despedacando-se'. E no quarto, o leitor e
informado de que o boletim meteorologico alerta sobre a mare que sobe.
Mas o nivel do mar nao apenas se eleva: no quinto verso, surge a imagem
de uma tempestade e de ondas que, no sexto, vem a romper 'espessos
diques'. O ultimo sela a imagem de destruicao que a natureza
conflagrada inflige ao homem e seu ambiente. Resta mencionar o
penultimo, que, de modo isolado, interrompe a sequencia imagetica que
culmina na percepcao de um cataclismo de proporcoes apocalipticas:
'Quase todo mundo esta resfriado'. Em meio ao caos que arrasta
os homens a destruicao, reponta a singela constatacao de um padecimento
banal, informacao que, por um atimo, subtrai ao leitor as imagens
seriadas da destruicao do mundo.
O gesto que poupa o leitor da visualizacao de corpos afogados ou
esmagados e ironico: na cena derradeira da historia, descrevem-se com
maior precisao e interesse as perdas materiais, assumindo o homem o
papel de figura coadjuvante no processo que sela o fim de todas as
coisas. Esse efeito e ainda potencializado pela tecnica poetica acima
aludida, que, como se disse, surtiu efeitos ulteriores notaveis na
lirica e na prosa do Expressionismo. Trata-se de um efeito de
simultaneidade, obtido sobretudo pelo uso sistematico da linguagem
paratatica. A novidade de seu emprego pelos expressionistas alemaes
reside na justaposicao de imagens dispares, que nao mais resultam em
mero efeito de reiteracao ou acumulacao. As imagens que se seguem nao
sao meramente complementares; estao desvinculadas entre si,
apresentam-se autonomas e singulares, e desse modo impedem a
constituicao de uma temporalidade linear. O quadro formado desafia a
percepcao do texto como expressao de algo que se revela por meio da
sucessao temporal de elementos descritos ou narrados. No poema de Hoddis
(1999), os versos justapostos geram um conjunto de imagens
agrupadas--parcelas de uma paisagem maior e, por assim dizer,
totalizadora. Em lugar de uma sucessao de eventos, o leitor depara sua
ocorrencia concomitante. A um so tempo, voa um chapeu, ressoa a
gritaria, sobe a mare, caem os telhadores e os trens, os diques sucumbem
a forca das ondas e as pessoas se resfriam. No mosaico produzido pelo
trabalho descritivo, casam-se a linguagem destituida de subordinacao e o
numero reduzido de versos, eles, por sua vez, bastante curtos. Tambem em
virtude desse procedimento de condensacao e sincronismo, o poema adquire
o tom blase da indiferenca sobranceira. Nele inexiste a expressao de
horror e medo panico que a terra convulsa poderia ou deveria suscitar.
Georg Simmel, ao estudar a formacao do fenomeno metropolitano no
inicio do seculo XX, identifica, no novo modus vivendi citadino e
moderno, um condicionamento psiquico que, em ultima instancia, conduz a
inercia o individuo submetido a uma onda de choques psiquicos.
O fundamento psicologico sobre o qual se assenta o tipo das
individualidades metropolitanas e a intensificacao da vida neural
[Nervenleben], que deriva da mudanca rapida e ininterrupta de impressoes
externas e internas (Simmel, 1995, p. 116),
contrariamente a formacao auferida na vida campestre ou na cidade
pequena, com seu ritmo "[...] mais lento e habitual, que flui de
maneira uniforme" (Simmel, 1995, p. 117). Para se defender da
pletora de estimulos os mais diversos a que esta sujeito, por exemplo, o
homem que transita no centro de uma grande cidade, o aparelho psiquico
passa a constituir uma especie de couraca protetora que, com o passar do
tempo, torna-o infenso a essa demanda externa. Todo novo impacto e
absorvido como produto de uma permanente rotina; a profusao de sons
provocados pelas maquinas e automoveis, o pregao dos vendedores nas
calcadas, os enormes letreiros luminosos, a algaravia de vozes, a
multidao que percorre as ruas da metropole, tudo isso se lhe torna
indiferente. Simmel, contudo, avanca na analise para identificar o
elemento social que medeia todo o processo. E na grande cidade, diz, que
se observa a real prevalencia de uma economia baseada no dinheiro:
As metropoles tem sido desde sempre a sede da economia monetaria,
pois ai a diversidade e a condensacao do intercambio economico imprimem
aos meios de troca uma relevancia que eles nao atingiriam no quadro de
escassez das operacoes rurais de permuta (Simmel, 1995, p. 118).
O critico lembra ainda que a economia monetaria e o dominio da
razao encontram-se em 'intima relacao', sendo que ambos
"[...] comungam de uma autentica objetividade no tratamento dos
homens e das coisas, no qual uma justica formal une-se amiude a uma
desapiedada violencia" (Simmel, 1995, p. 118). Dessa maneira,
O homem realmente racional e indiferente a tudo aquilo que seja
verdadeiramente individual, pois a partir do individuo surgem vinculos e
reacoes que nao se coadunam com a razao--do mesmo modo como a
individualidade dos fenomenos nao acede ao principio do dinheiro. Pois o
dinheiro diz respeito apenas aquilo que e comum a esses fenomenos, ao
valor de troca, que nivela todas as qualidades e particularidades no
plano do mero 'quanto custa?' (Simmel, 1995, p. 116)
No poema, o desinteresse pela sorte dos homens nao e, portanto,
arbitrario. Insere-se antes na nova ordem das coisas, a essa altura ja
naturalizada. Note-se que o ensaio de Simmel e de 1903, e o poema, como
ja mencionado, data de 1911. Portanto, nao foi preciso o advento da
guerra para se chegar a constatacao de que a eventual aniquilacao da
humanidade poderia ser contemplada e descrita com tranquilo descaso, da
mesma maneira que hoje a catastrofe ambiental pode ser noticiada sem
nenhum expediente de graduacao qualitativa que a distinga de uma
trivialidade qualquer produzida pela industria cultural. A normalizacao
da vida social produzida pelas relacoes de troca, nas quais o
denominador comum e a pura quantidade, traduz-se neste Fim do mundo por
via da tecnica descritiva e enumerativa, que enseja uma equiparacao das
imagens listadas a cada verso. Elas se tornam assim qualitativamente
equivalentes. O resquicio de humanidade insinuado pela onda de
resfriados desaparece ao se nivelar, na forma do poema, a tudo o mais
que se perde na voragem apocaliptica.
Fim do mundo (4)
Chora-se no mundo
Como se o bom Deus houvesse morrido,
E a plumbea sombra que cai
Pesa como um tumulo.
Venha, vamos nos esconder bem juntos ...
A vida jaz nos coracoes de todos
Como em esquifes.
Ei! Vamos nos beijar sofregamente--Uma
saudade palpita no mundo;
Por sua causa morreremos.
Else Lasker-Schuler (1869-1945) publicou o seu Fim do mundo em
1905, antecipando em pelo menos meia decada as primeiras manifestacoes
liricas da jovem geracao expressionista. A par da identidade do titulo,
sobressai uma grande diferenca em relacao ao poema de Hoddis, a comecar
pelo tom elegiaco. Em seu poema, o mundo nao se esta desfazendo em
ruinas, ele ja acabou. Resignadamente, procede-se a uma cerimonia de
despedida, e a primeira estrofe cuida de expressar o infortunio do homem
perante o sumico de Deus. Nao se trata simplesmente da constatacao da
inexistencia da divindade. Ainda que tenha uma vez existido ou ainda
exista, o ser supremo nao se revela; tudo se passa como se
'houvesse morrido', restando (de sua lembranca?) a sombra
plumbea, 'pesada como um tumulo'. Feito o registro do
abandono, surge, na segunda estrofe, uma voz que se dirige a alguem para
fazer o convite: 'vamos nos esconder bem juntos ...'. O
chamado para o refugio e seguido por declaracao que implica novo abalo,
relacionado ao da perspectiva ja assinalada da morte de Deus. E a vida
que perde o prumo, que se desgarra de si mesma. Ela se assenta 'nos
coracoes de todos', mas o faz como se estivesse encerrada em sua
ultima morada--uma vida no limiar da extincao ou, melhor dizendo, uma
morte em vida. Cumpre celebra-la uma ultima vez, e o chamamento expresso
no primeiro verso da terceira estrofe prefigura o ritual mais adequado
para a despedida: o ato amoroso que ha de se consumar de maneira
ardente.
As imagens associadas a morte de Deus, bem como a ideia de uma
existencia humana inteiramente desvitalizada, promovem decerto forte
impressao de desamparo. Sera, contudo, o penultimo verso o responsavel
pela introducao do elemento que aprofundara e cristalizara o mal-estar
enunciado: 'Uma saudade palpita no mundo'. Note-se que a
importancia desse sentimento e proporcional a seu grau de indefinicao.
Diretamente nada se diz de seu objeto. Conhece-se, porem, a forma de sua
manifestacao: trata-se de uma saudade que palpita, vale dizer, que se
expressa de modo regular e continuo, fazendo-se notar ininterruptamente.
Essa percepcao plastica da saudade remete a imagem central da segunda
estrofe do poema. O verso seguinte, que o fecha, acrescenta um dado que
nao apenas imprime a saudade a feicao da dor que lateja sem cessar, mas,
a partir dela, estabelece um prognostico sinistro e fatidico--'Por
sua causa morreremos'. Ve-se que a saudade nao e apenas a dor que
tortura sem descanso; ela e o claro sinal de que algo vital esta
irremediavelmente perdido, ao menos para a dupla que se forma para se
entregar a um ultimo e sofrego beijo.
Em poema posterior, (5) publicado em 1920, LaskerSchuler retoma a
imagem da energia pulsante do coracao para contrasta-la com o entorno
morto: "Meu pulso transformou o sangue em chamas/ mas tudo era
cinzento e frio a meu redor" (6) (1999, p. 169, traducao nossa). E
em verso subsequente do mesmo poema, o eu-lirico pergunta e logo
responde: "Onde vou terminar?--Oh Deus!! Nas estrelas entao
[...]" (7) (1999, p. 169, traducao nossa) pois, ao que tudo indica,
a terra deixou de ser habitavel. Para a geracao expressionista, a
acelerada mecanizacao da vida foi, muitas vezes, a traducao mais acabada
e perceptivel de uma grande catastrofe. Influenciados pelos futuristas,
que lhes legaram a ideia da simultaneidade, efeito justamente dos
processos tecnologicos em curso, os expressionistas voltaram-lhes as
costas quando se tratou de apreciar o real valor do frenesi moderno.
Enxergaram, pelas lentes de Marinetti, a formidavel onda de choques a
que estava sujeita a sociedade tecnologica (8), mas, ainda que as cegas,
intuiram aquilo que se realizava nas oficinas da vanguarda italiana: o
trabalho de douracao da pilula capitalista. Em sua grande maioria, os
expressionistas alemaes assumiram, sobretudo apos o inicio da guerra,
uma atitude cada vez mais antiburguesa, embora tenham sido raros aqueles
capazes de superar a miopia politica de um anticapitalismo romantico.
Assim, acabaram por confundir o fim de uma epoca com o fim do proprio
mundo, transfigurado na imagem horripilante da desgovernada fabrica de
Metropolis, de Fritz Lang, em certo sentido, o mais expressionista dos
filmes alemaes (9).
Pertencente a uma geracao anterior a dos 'autenticos'
expressionistas, Lasker-Schuler, com sua poesia sentimental e
melancolica, observou, provavelmente com maior distanciamento, o
fenomeno em que, pela data de nascimento, ja estavam imersos os
companheiros da nova geracao. Sua saudade, pode-se dizer, e mais
sentida, e a tecnica do verso, por isso mesmo, e refrataria ao uso da
parataxe e de outros expedientes formais que caracterizariam uma boa
parte da nova lirica alema, antes e durante a guerra. O Expressionismo
de Lasker-Schuler e pre-futurista, estando ainda impossibilitado de
conferir forma lirica plena ao vortice da modernidade
tecnico-cientifica. Sua poesia esta quica mais proxima do verso
rilkeano, que busca desesperadamente um vislumbre de 'pura
duracao' no abraco dos amantes, imersos ainda na perenidade das
coisas, como se observa na segunda elegia duinense (Rilke, 1996).
Antecipa o assunto do poema de Hoddis, mas nao a forma, observando-se ai
o salto protagonizado pela nova geracao, inteiramente mergulhada no
processo industrial e tecnologico que iria pautar, entre outras coisas,
o novo andamento da guerra.
O poema abaixo, de Gottfried Benn (1886-1956), foi publicado pela
primeira vez em 1913, ano em que ingressou no Hospital Ginecologico de
Charlottenburg, como chefe da area de patologia. Nessa epoca, o jovem
medico tambem havia adquirido certa experiencia como legista, tendo
realizado ate entao quase duzentas autopsias numa clinica em Spandauer
Damm, suburbio de Berlim. Fruto desse trabalho, um ciclo de poemas sobre
a morgue granjeou-lhe fama instantanea, associada ao escandalo da
profanacao, por assim dizer, poetica de cadaveres, num procedimento
lirico em que a pena se confundia com o bisturi empregado a mesa de
disseccao.
Homem e mulher caminham pelo pavilhao do cancer (10)
O homem:
Esta e a fila dos ventres arruinados
E esta, a dos peitos arruinados.
As camas fedem, uma ao lado da outra. As
enfermeiras revezam-se a cada hora.
Venha, nao se acanhe de erguer o lencol.
Veja: este amontoado de gordura e liquidos podres
Representou certa vez algo grandioso para um
homem,
Para ele significou embriaguez e patria.
Venha, veja esta cicatriz no peito.
Sente o rosario dos nodulos amolecidos?
Nao se acanhe de toca-los. A carne e flacida e nao
causa dor.
Esta aqui sangra feito trinta corpos juntos.
Ninguem tem tanto sangue assim.
Desta ainda extrairam
Uma crianca do ventre tomado pelo cancer.
Elas podem dormir. De dia e de noite.--As novatas
Diz-se: aqui o sono e reparador.--Apenas aos
domingos
Sao despertadas um pouco mais para receber as
visitas.
Mal se consome a comida. As costas
Estao cheias de escaras. Veja as moscas. As
enfermeiras
Lavam-nas as vezes. Assim como se lavam os bancos.
Aqui o terreno incha ao redor de cada leito.
A carne nivela-se com o chao. A brasa extingue-se.
O liquido comeca a escorrer. A terra chama.
No poema de Benn, um homem (um medico? Um enfermeiro?) introduz uma
mulher (uma medica-residente? Uma enfermeira em treinamento?) no
ambiente infecto e repulsivo de uma enfermaria lotada de pacientes
vitimadas pelo cancer. Infenso ao ambiente decrepito e mal cheiroso,
suas primeiras palavras denotam, sobretudo, a preocupacao com um detalhe
relativo a distribuicao espacial das internas na enfermaria, que estao
agrupadas de acordo com uma classificacao baseada no lugar do corpo onde
os tumores proliferam: 'Esta e a fila dos ventres arruinados/ E
esta, a dos peitos arruinados.' O criterio anatomico preside uma
ordem que, a despeito do estagio terminal da doenca e da inexistencia de
um procedimento terapeutico em curso, continua a definir a disposicao
dos leitos no pavilhao das cancerosas.
O mapeamento anatomico das doencas adquiriu relevo no seculo XVIII,
e esta desde entao submetido a um criterio que se originou da
classificacao botanica. Tratava-se, naquela epoca, de instaurar uma nova
racionalidade, que promovia a abstracao do doente e gerava uma
investigacao clinica centrada de modo univoco nos sinais e sintomas da
doenca. Nessa perspectiva, o doente se torna, como lembra Foucault,
"[...] apenas um fato exterior em relacao aquilo de que sofre: a
leitura medica deve toma-lo em consideracao para coloca-lo entre
parenteses" (Foucault, 1977, p. 17). Surge entao, inevitavelmente,
a questao moral em torno da observacao e experimentacao clinica
executada sobre o corpo despersonalizado. Em estagio ja avancado da
Revolucao Francesa, o "[...] problema mais importante que a ideia
clinica suscitava era: com que direito se podia transformar em objeto de
observacao clinica um doente que a pobreza obrigava a vir pedir
assistencia no hospital?" (Foucault, 1977, p. 94). De acordo com
Foucault, a resposta ao dilema surgiu a partir da ideia de uma obrigacao
social contraida pelo pobre em virtude do financiamento de sua
internacao:
Mas, olhar para saber, mostrar para ensinar nao e violencia muda,
tanto mais abusiva que se cala, sobre um corpo de sofrimento que pede
para ser minorado e nao manifestado? Pode a dor ser espetaculo? Pode e
mesmo deve, pela forca de um direito sutil que reside no fato de que
ninguem esta so, e o pobre menos do que os outros [...], [pois] so pode
receber assistencia pela mediacao do rico. (Foucault, 1977, p. 96).
Diante da advertencia, o doente recalcitrante a exposicao de seu
mal "[...] se tornaria ingrato, pois teria usufruido das vantagens
que resultam da sociabilidade, sem pagar o tributo do
reconhecimento" (Chandon de Montaux apud Foucault, 1977, p. 96).
No inicio do seculo XX, quando a internacao hospitalar ja
constituia a regra para o tratamento de uma serie de molestias, com
destaque para sua fase terminal, havia muito se naturalizara a
propedeutica medica direta e livre de interdicoes impostas por nocoes de
recato. E ainda hoje, nas instituicoes nosocomiais e ambulatoriais
vinculadas ao ensino medico, e sempre marginal a discussao sobre o
desconforto do paciente ante o desnudamento de seu corpo e sobre seu
direito ao conhecimento exato das medidas terapeuticas adotadas. A perda
do pudor em 'erguer o lencol' transforma-se em elemento
substantivo no treinamento medico, no qual sobressai a definitiva
disjuncao perceptiva entre doenca e doente, entre a manifestacao visivel
da enfermidade e aquele que a padece. Nas visitas medicas e nas
discussoes de 'casos' nos hospitais universitarios, amiude
enuncia-se o numero do leito em lugar do nome do paciente internado, num
gesto de subtracao asseptica da personalidade e em favor da objetivacao
daquilo que atende aos reclamos exclusivos do diagnostico. No poema de
Benn, a visita a enfermaria reproduz um quadro que se reatualiza
cotidianamente na medicina contemporanea. Thomas Bernhard testemunha o
mesmissimo cenario de anonima dissolucao corporal na prosa
autobiografica de Der Atem [A respiracao]. No romance, o narrador em
primeira pessoa conta que, depois de ter sido internado as pressas por
um quadro de grave afeccao pulmonar, recobra paulatinamente a
consciencia para deparar aquela atmosfera lugubre descrita no poema,
vendo-se internado num pavilhao de doentes terminais em que os odores
fetidos asfixiam, e o pessoal medico transita indiferente por entre os
leitos, exercendo uma atividade automatizada e rotinizada que soterra
qualquer esperanca de alivio para o sofrimento de dezenas de moribundos,
todos eles devidamente sedados:
As enfermeiras tinham um olhar treinado para identificar os
candidatos a morte, viam com bastante antecedencia, antes que a pessoa
em questao o percebesse, que este ou aquele rapidamente se aproximava do
fim [...] e, naturalmente, elas desempenhavam sua tarefa com extrema
habilidade, com extrema indiferenca (Bernhard, 2004, p. 22-23).
E tambem em Bernhard os corpos dos internados transfiguram-se num
amontoado de carne entorpecida e degenerada, de modo que sao
transportados de um lugar a outro como massa inerte e desprovida de
identidade. Seu narrador descreve os ambientes por que transita como
sendo o de estacoes vesperais da morte. A enfermaria onde o internam
logo que chega e chamada de 'sala dos velhos' [Alterszimmer],
pois, como constata, quase todos os pacientes ai encerrados contam mais
de setenta anos. Ele, porem, logo a rebatiza como a 'sala da
morte' [Sterbenzimmer], ao notar que ninguem sai vivo dali. E
nenhum leito permanece desocupado por muito tempo. Quando e preciso
obter espaco para novos ingressantes, e caso nao esteja igualmente
lotado, o banheiro substitui a funesta enfermaria na funcao de abrigo
derradeiro para o interno agonizante:
Apenas quando havia lugar no banheiro, levavam-se ate ali aqueles
cuja morte, ao que tudo indicava, era iminente. [...] Dependia tambem do
humor e da disposicao das enfermeiras, e alem disso, da disponibilidade
de enfermeiros com que se pudesse contar, o fato de um moribundo ser
transportado a tempo da sala da morte para o banheiro (Bernhard, 2004,
p. 22).
Tanto na prosa de Bernhard como no poema de Benn, a sorte dos
doentes figura como o desfecho de um processo que e gerido na forma de
um rito. A espacializacao da doenca no corpo transborda para a
demarcacao do lugar que cabe a cada paciente na enfermaria, levando-se
em conta seu mal especifico e o estagio alcancado pela molestia. Uma
racionalidade de fundo taylorista dita o procedimento espacial e
temporal necessario para se acompanhar, com maxima eficiencia, a
evolucao do quadro morbido ate o 'exito letal', que, no jargao
medico, frequentemente designa a morte. O termo, alias, indica com
precisao a ideia de processamento; pressupoe a morte como resultado
necessario do desenvolvimento 'natural' e
'padronizado' da doenca. As medidas tomadas pela equipe de
medicos e enfermeiras submetem-se, portanto, a logica da constancia
observavel na progressao da enfermidade e de sua irreversibilidade.
No poema de Benn, a espacializacao compartimentalizada dos leitos
figura como item de uma extremada racionalizacao da rotina hospitalar,
que estende seus tentaculos ate o limite ultimo da existencia. A vida,
ja em seus estertores, permanece condicionada aos trilhos da gestao
organizada do cotidiano. O pavilhao, a despeito do ar nauseabundo, e
apresentado a mulher que o visita como lugar da ordem e da passagem
'processual' da vida para a morte. E na esteira dessa linha de
montagem, a producao e regular e homogenea: as internas partilham de um
estado de sedacao que se generaliza sob o efeito de narcoticos ou que e
causado pela propria falencia corporal. Todas elas se sujeitam a mesma
proliferacao de feridas no dorso, bem como recebem o mesmo banho, ou
melhor dizendo, a mesma lavagem do corpo, alvo de uma higienizacao
identica a que se aplica ao mobiliario hospitalar. E mais uma vez, e o
emprego da parataxe o procedimento formal que enfeixa a visao seriada
dos grupos uniformizados de pacientes. O uso persistente de versos
justapostos, desprovidos de subordinacao causal ou temporal, garante com
maxima eficiencia o efeito de compartimentalizacao e seriacao. Na
ordenacao do espaco subdividido, nenhum elemento ganha relevo diante dos
demais. As filas dos leitos nao guardam diferenca hierarquica entre si.
O fato de uma paciente sangrar 'feito trinta corpos juntos'
nao a distingue, em termos da atencao que lhe e dispensada na visita,
daquela que teve o bebe extraido do utero canceroso. A inapetencia, as
chagas, o enxame de moscas e o asseio corporal comprimem-se numa mesma
estrofe, como fenomenos que se confundem na rotina do pavilhao:
"Mal se consome a comida. As costas/ Estao cheias de escaras. Veja
as moscas./ As enfermeiras lavamnas as vezes. Assim como se lavam os
bancos" (Benn, 1999, p. 74). Os efeitos da doenca e as medidas
'profilaticas' que lhes correspondem formam um amalgama de
imagens e acoes desprovidas de discriminacao hierarquica. O vies
organizacional nivela todas as coisas, suspendendo a possibilidade de se
distinguir o sofrimento como elemento de individualizacao do doente.
Desse modo, o poema de Benn nao se reduz a exposicao cinica de um
voyeurismo sadico, e o malestar que suscita advem da forma empregada
para a descricao do ambiente hospitalar: sequencial e protocolar,
despojada de vezo denunciatorio. O homem que encabeca o tour pelos
leitos segue tao somente a orientacao de um manual de instrucoes,
fazendo uma descricao que lembra a linguagem sobria e desprovida de
pathos do narrador dos romances de Kafka.
Na ultima estrofe, a homogeneizacao operada na enfermaria atinge
seu ponto climatico: "Aqui o terreno incha ao redor de cada leito./
A carne nivelase com o chao. A brasa extingue-se./ O liquido comeca a
escorrer. A terra chama." (Benn, 1999, p. 74) O rito de
processamento organizado da morte finaliza-se, e o chao se abre como
embalagem que recebe a materia produzida. Toda e qualquer tensao
preexistente desaparece por meio da equiparacao entre a oferta de carne
e os rogos da terra. Oferta e demanda encontram seu ponto de equilibrio,
e assim a brasa que se apaga semelha a do forno que, encerradas as
atividades de fabrico, pode ser desativado. A estrofe gera, no poema,
mais uma imagem de grande impacto, provendo-o de um desfecho possivel e
aparentemente necessario. E forcoso, porem, ressaltar o corte desferido
no discurso que se detivera ate entao no convite a observacao detalhada
dos corpos e seus padecimentos. Da exposicao crua e direta da decadencia
fisica das pacientes, o anfitriao passa, sem mais, a um discurso
essencialmente metaforico, operado de fato por uma nova instancia
lirica. E como se o enunciado das estrofes precedentes se interrompesse
para ceder a vez ao comentario de um estranho. Nesse ponto, Benn
introduz uma torcao que gera uma atitude de resignacao diante do
festival de horrores da enfermaria, pois, no final das contas, o que
resta e a morte, da qual ninguem escapa. De um lado, a extraordinaria
apresentacao do quadro de degradacao da vida moderna e, de outro, na
ultima estrofe, o acento niilista. Essa disjuncao indica os limites da
lirica de Benn, que, flertando com a expressao realista da realidade
social, acaba por curvar-se aos limites de um quadro essencialmente
descritivo. Nao obstante, esses versos mal cheirosos, que escandalizaram
seu primeiro publico, calam fundo na consciencia do leitor de hoje, na
medida em que esta submetido a processos ainda mais acentuados de
assepsia e desumanizacao.
Consideracoes Finais
A ausencia de perspectiva historica constituiu grave empecilho ao
exercicio de uma critica social consequente por parte dos
expressionistas. No Fim do mundo de Hoddis, ressalta a visao
apocaliptica que confunde o fim da era burguesa com o fim da propria
humanidade. Nao obstante, essa poesia logra apontar aspectos
fundamentais da vida moderna, por meio de certos recursos formais, com
relevo para a utilizacao intensiva e original da parataxe. Como se viu,
o expediente e responsavel por uma percepcao inusitada do cataclismo
capitalista: a vida humana confundindo-se com o artificio e o artefato,
o vagao de trem com os passageiros que acolhe, o ultimo sopro de vida
com os restos do naufragio.
Escrito apenas seis anos antes do poema de Hoddis, o outro fim de
mundo, de Lasker-Shuler, sustenta tracos de um passado que ainda acolhe
a relacao intersubjetiva e a ideia de uma dignidade humana. Diante da
catastrofe, o amante pode oficiar o rito de despedida com alguma
solenidade, dispondo do tempo necessario para executar seu canto de
cisne. O tempo ainda nao se conjuga em acoes unissonas e simultaneas.
Comparados, os apocalipses de um e de outro poema revelam o salto na
direcao de uma compreensao mais aguda do fenomeno em Hoddis, cujos
versos liquidam os resquicios de um eu-lirico, fazendo emergir uma voz
autenticamente narrativa, que ja nao conhece a instancia do sujeito
desejante e autonomo. O mesmo acontece com a enfermaria de Benn,
alienada de qualquer possibilidade de um gesto genuinamente humano, na
medida em que o positivismo medico impoe-lhe a cabal ruptura com os
processos sociais constituintes da alteridade.
Doi: 10.4025/actascilangcult.v38i1.28006
Referencias
Benn, G. (1999). Mann und Frau gehen durch die Krebsbaracke. In S.
Vietta (Org.), Lyrik des Expressionismus (p. 73-74). Tubingen, AL: Max
Niemeyer.
Bernhard, T. (2004). Der Atem. Eine Entscheidung. Munchen, AL:
Deutscher Taschenbuch Verlag.
Daubler, T. (1998). Im Kampf um die moderne Kunst und anderen
Schriften. Darmstadt, AL: Deutsche Akademie fur Sprache und Dichtung.
Foucault, M. (1977). O nascimento da clinica. (Roberto Machado,
trad.). Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitaria.
Hoddis, J. (1999). Weltende. In S. Vietta (Org.), Lyrik des
Expressionismus (p. 93). Tubingen, AL: Max Niemeyer.
Lasker-Schuler, E. (1999). Gott hor ... In S. Vietta (Org.), Lyrik
des Expressionismus (p. 169). Tubingen, AL: Max Niemeyer.
Lasker-Schuler, E. (1999). Weltende. In S. Vietta (Org.), Lyrik des
Expressionismus (p. 103-104). Tubingen, AL: Max Niemeyer.
Pinthus, K. (1964). Menschheitsdammerung: ein Dokument des
Expressionismus. Hamburg, AL: Rowohlt.
Rilke, R. M. (1996). Werke. Band 2: Gedichte. 1910-1926. Frankfurt
am Main, AL: Insel.
Simmel, G. (1995). Die GroBstadt und das Geistesleben. In R.
Kramme, A. Rammstedt, & O. Rammstedt (Orgs.), Gesammelte Ausgabe.
(Vol. VII). Frankfurt am Main, AL: Suhrkamp.
Received on May 30, 2015.
Accepted on November 16, 2015.
Tercio Redondo
Departamento de Letras Modernas, Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciencias Humanas, Universidade de Sao Paulo, Rua do Lago, 717,
05508-080, Sao Paulo, Sao Paulo, Brasil. E-mail:
[email protected]
(1) Salvo indicacao contraria, as traducoes dos poemas e das
citacoes aqui apresentados sao de minha autoria. Cumpre ressaltar que o
texto traduzido nao reproduz alguns aspectos importantes da forma
original, com destaque para a rima (como se da nos dois primeiros
casos). Isso se deve a necessidade de garantir a traducao maior
fidelidade em relacao a termos e expressoes responsaveis pela
constituicao de uma serie de imagens que se buscou destacar. Alem disso,
priorizou-se, na traducao dos tres poemas, o reiterado emprego da
parataxe, procedimento formal que e objeto privilegiado da analise aqui
empreendida.
(2) WELTENDE// Dem Burger fliegt vom spitzen Kopf der Hut,/ In
allen Luften hallt es wie Geschrei,/ Dachdecker sturtzen ab und gehn
entzwei/ Und an den Kusten --liest man--steigt die Flut.// Der Sturm ist
da, die wilden Meere hupfen/ An Land, um dicke Damme zu zerdrucken./ Die
meisten Menschen haben einen Schnupfen./ Die Eisenbahnen fallen von den
Brucken.
(3) Em 1901, Julien Auguste Herve utilizou-se do termo
expressionisme para se referir a obras de uma exposicao de quadros em
Paris. Na Alemanha, ele foi empregado pela primeira vez em 1911, numa
exposicao da Secessao Berlinense para diferenciar da fatura
impressionista os quadros de Braque, Derain, Picasso e outros pintores
vanguardistas. Nesse mesmo ano, Kurt Hiller apropriou-se dele num ensaio
que tratava da vanguarda literaria de Berlim.
(4) WELTENDE //Es ist ein Weinen in der Welt,/ Als ob der liebe
Gott gestorben war,/ Und der bleierne Schatten, der niederfallt,/ Lastet
grabeschwer.// Komm, wir wollen uns naher verbergen .../ Das Leben liegt
in aller Herzen/ Wie in Sargen.// Du! wir wollen uns tief kussen--/ Es
pocht eine Sehnsucht an die Welt,/ An der wir sterben mussen.
(5) Trata-se de "Gott hor ..." [Ouve, Deus ...].
(6) "Mein Puls verwaldelte das Blut in Flamen/ Und doch war
alles grau und kalt um mich."
(7) "Wo ende ich?--O Gott!! Denn in die Sterne [...]"
(8) Em 1916, Theodor Daubler resumiu do seguinte modo a ideia de
simultaneidade concebida pelo Futurismo: "O primeiro quadro que
recebe a denominacao 'Visoes Simultaneas' e de Umberto
Boccioni, que, dessa maneira, empregou o termo pela primeira vez. Esse
termo devia caracterizar resumidamente uma celebracao da velocidade e do
burburinho da metropole, um novo estado febril, despertado pelas
conquistas cientificas. Simultaneidade--logo consta num manifesto
futurista--e a condicao sob a qual se apresentam distintos elementos que
constituem o dinamismo. Marinetti escreveu em seguida um tratado sobre a
simultaneidade na literatura" (Daubler, 1988, p. 38)
(9) No filme de 1927, Fritz Lang explora a ideia de um processo
social irrefreavel na modernidade. A goela da fornalha que demanda
permanentemente o sacrificio humano reencena o fetiche do dinheiro. Para
Marx, este se torna a tal ponto abstraido do trabalho que, no imaginario
coletivo, passa a andar com suas proprias pernas, qual automato fugido
das maos de seu criador. Em Metropolis, uma vez acionadas, as
engrenagens da grande maquina nao mais se submetem as tentativas de
para-la.
(10) MANN UND FRAU GEHEN DURCH DIE KREBSBARACKE// Der Mann:/ Hier
diese Reihe sind zerfallene Schofte/ und diese Reihe ist zerfallene
Brust./ Bett stinkt bei Bett. Die Schwestern wechseln stundlich.// Komm,
hebe ruhig diese Decke auf./ Sieh, dieser Klumpen Fett und faule Safte,/
das war einst irgendeinem Mann groft/ und hieft auch Rausch und
Heimat.// Komm, sieh auf diese Narbe an der Brust./ Fuhlst du den
Rosenkranz von weichen Knoten?/ Fuhl ruhig hin. Das Fleisch ist weich
und schmerzt nicht.// Hier diese blutet wie aus dreiftig Leibern./ Kein
Mensch hat so viel Blut./ Hier dieser schnitt man/ erst noch ein Kind
aus dem verkrebsten Schoft.// Man laftt sie schlafen. Tag und
Nacht.--Den Neuen/ sagt man: hier schlaft man sich gesund.--Nur
Sonntags/ fur den Besuch laftst man sie etwas wacher.// Nahrung wird
wenig noch verzehrt. Die Rucken/ sind wund. Du siehst die Fliegen.
Manchmal/ wachst sie die Schwester. Wie man Banke wascht.// Hier
schwillt der Acker schon um jedes Bett./ Fleisch ebnet sich zu Land.
Glut gibt sich fort./ Saft schickt sich an zu rinnen. Erde ruft.